Medições do aquecimento global via satélites podem estar erradas há décadas

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O aquecimento global é um fenômeno climático observado pelo aumento da temperatura média do planeta, mas, para chegar a este resultado, é necessário considerar os diversos sistemas que compõem o planeta. Graças à tecnologia, cientistas são capazes de modelar o sistema terrestre e prever alguns comportamentos, mas um novo estudo indica que a temperatura da Terra pode estar ainda mais alta do que se pensava. A pesquisa, publicada na Journal of Climate, descobriu que as medições de satélites dos últimos 40 anos podem ter desconsiderado o aquecimento de regiões mais baixas da atmosfera — ou seja, o problema pode ser ainda pior do que sabemos.

Embora seja um trabalho complexo, medir a temperatura global depende das leis da natureza, ou seja, das equações físicas que coordenam as relações de temperatura e umidade do ar. No entanto, o novo estudo apresentado por Ben Santer, cientista climático do Lawrence Livermore National Laboratory (LLNL) e líder da pesquisa, revela que muitas medições de temperatura e umidade usadas nos atuais modelos climáticos divergem dessas leis. Isso poderia significar que os dados de satélites referentes à troposfera — a camada mais baixa da atmosfera — não consideraram a temperatura dessa camada ou sua umidade. A troposfera é uma camada compreendida entre 6 e 20 km de altitude.

O cientista climático explica que, atualmente, é difícil determinar qual interpretação é a mais confiável. “Mas nossa análise revela que vários conjuntos de dados observacionais — particularmente aqueles com os menores valores de aquecimento da superfície do oceano e aquecimento troposférico — parecem estar em desacordo com outras variáveis medidas ​​complementares independentemente”, acrescenta Santer. Ou seja, as medidas que acusam o menor aquecimento também podem ser as menos confiáveis.

Para a pesquisa, Santer e sua equipe analisaram quatro proporções diferentes de propriedades climáticas: a proporção da temperatura da superfície do mar tropical para o vapor de água; a temperatura da troposfera baixa para o vapor de água; a temperatura da troposfera média com o vapor de água e a mais alta troposfera, também em comparação a superfície do mar tropical. Os modelos climáticos elaboram essas proporções segundo as leis da física. Para aquecer o ar úmido, é necessário mais energia do que para aquecer o ar seco, assim como o ar mais quente pode reter mais umidade do que o ar frio — o orvalho, pela manhã é um exemplo disso, quando o ar frio derrama água.

No estudo, os pesquisadores descobriram que os dados dos satélites não seguiram muito bem essas regras da natureza, o que os leva a pensar que alguns conjuntos de dados (aqueles que se adaptam melhor às leis da física que coordenam a relação de umidade e calor) são mais precisos do que outros. Seguindo as informações que se enquadraram às regras, os modelos apontam um maior aquecimento da superfície do mar e também da troposfera.

A equipe seguirá com mais estudos sobre esses dados e a relação dos satélites com as medidas das regiões mais baixas da troposfera — inclusive pretendem descobrir se os satélites estão errando em alguma leitura. Stephen Po-Chedley, co-autor do artigo e cientista atmosférico da LLNL, diz que usar os modelos para testar a viabilidade das observações do mundo real pode ajudar os pesquisadores a rastrear o aquecimento global histórico com mais precisão. “Essas comparações entre medições complementares podem lançar luz sobre a credibilidade de diferentes conjuntos de dados”, ressalta Po-Chedley.

O artigo com mais detalhes sobre as análises pode ser integralmente acessado no periódico científico Journal of Climate.

Fonte: Space.com

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