Como o contexto Religioso influi na interpretação das passagens bíblicas

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1. Por que Moisés deu um mandamento tão estranho quanto este: não cozerás o cabrito no leite da sua própria mãe” (Êx 23.19; 34.26; Dt 14.21)? Existem referências a essa prática em escritos descobertos na antiga cidade de Ugarite, próxima à atual Ras Shamra, no Líbano. De acordo com essa descoberta arqueológica, tal hábito era parte de um ritual cananeu. Evidentemente, então, Deus não queria que os israelitas participassem de nenhuma prática religiosa dos cananeus. Outro motivo poderia ser o fato de Deus não querer que os israelitas misturassem uma substância que sustenta a vida (o leite) com um processo associado à morte (cozimento). Como escreveu Filo, filósofo judeu do século I, é “totalmente inconcebível que a substância que alimentou o animal seja utilizada para sazoná-lo ou temperá-lo depois de morto”.

2. Qual a razão de Deus ter lançado as dez pragas sobre o Egito? Quer dizer, por que ele enviou justamente aquelas pragas em vez de outras? Parece que a resposta está no fato de que eram consideradas polêmicas ou atos de contestação da validade dos deuses e deusas egípcios. Com as pragas, Deus estava atacando e expondo a incapacidade e, consequentemente, a falsidade dos deuses e deusas egípcios. O quadro a seguir relaciona os deuses que foram atacados pelas pragas. Essas surtiriam grande efeito entre os egípcios. Por exemplo, eles acreditavam que o rio Nilo era protegido por vários deuses e deusas.

Mas, quando Deus o transformou em sangue, ficou evidente a incapacidade desses guardiães de cumprirem o papel que o povo lhes atribuía. Por que o gado haveria de morrer (na quinta praga) se a deusa egípcia Hátor, que tinha cabeça de vaca, era a protetora desses animais, e por que o gado morreria na presença do deus-touro egípcio Apis, que simbolizava a fertilidade? O objetivo dessa praga foi mostrar que Hátor e Apis eram deuses falsos. A chuva de pedras que destruiu as plantações, na sétima praga, mostrou que várias deusas e deuses foram incapazes de controlar as tempestades no céu e evitar a catástrofe no campo. Entre esses estavam Nut, a deusa do céu; Osiris, o deus da boa safra; e Seti, o deus das tempestades. Na décima praga, ísis, que era uma das principais divindades e que se acreditava ser a protetora das crianças, não pôde evitar a morte dos primogênitos de todas as famílias egípcias. O conhecimento desses fatos ajuda-nos muito a entender as pragas.

3. Por que Elias propôs que o monte Carmelo fosse o local de sua disputa com os 450 profetas de Baal? Os seguidores de Baal acreditavam que este habitasse no monte Carmelo. Portanto, Elias deixou que eles “jogassem em casa” . Se Baal não conseguisse fazer cair um raio sobre um sacrifício em seu próprio território, sua fraqueza se tomaria evidente. Outro ponto interessante é que os cananeus viam a Baal como o deus da chuva, dos raios, do fogo e das tempestades. Como até pouco antes desse episódio dramático houvera uma seca de três anos e meio, estava claro que Baal não era capaz de fazer chover. Sua incapacidade também foi demonstrada pelo fato de não conseguir fazer cair fogo do céu sobre o sacrifício,

4. Por que motivo Paulo escreveu, em Colossenses 2.3, que Cristo é o mistério de Deus “em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” e, no versículo 9, que “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”? O apóstolo ressaltou esses fatos acerca de Cristo porque os falsos mestres em Colossos estavam pregando que Cristo era Deus apenas parcialmente. As afirmações de Paulo, portanto, formam uma contestação direta àquela falsa idéia. ?

 5. Por que Paulo levantou a questão da carne oferecida a ídolos, em 1 Coríntios 8? Hoje em dia, nenhum convidado senta-se à mesa e pergunta se a carne havia sido oferecida a algum ídolo. É óbvio que esse costume pertence a uma cultura diferente da nossa. A questão é que os coríntios compravam a carne no mercado, ofereciam uma parte a ídolos pagãos num dos muitos templos e levavam o restante para casa, a fim de servir no jantar. Conseqüentemente, alguns cristãos achavam que o fato de comerem aquela carne os tomaria participantes da adoração a ídolos.

6. Por que os herodianos, os saduceus e um escriba fizeram aquelas perguntas para Jesus, em Marcos 12.13-28? As indagações diziam respeito às suas respectivas ocupações e crenças. Os herodianos tinham o apoio de Herodes e dos romanos, por isso discutiram com Jesus a questão do pagamento de impostos a um poder estrangeiro (v. 14). Os saduceus não acreditavam em ressurreição, portanto procuraram calar seu opositor levantando uma situação hipotética sobre uma mulher que teve sete maridos (v. 23). Os escribas judeus, por sua vez, preocupavam-se com os mandamentos do Antigo Testamento; assim, um deles perguntou a Jesus qual era o mais importante (v. 28).

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 93-94