Maioria dos desempregados relata ansiedade e depressão

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O desalento, o achatamento da renda familiar e a perda de poder de compra são os efeitos diretos do alto índice de desemprego. Mas, para além das contas bancárias zeradas e da consequente redução do consumo, a desocupação deixa sequelas profundas. Ansiedade, depressão, destruição de lares e até suicídios têm vindo a reboque da crise.

O número de pessoas que atentaram contra a própria vida triplicou em seis anos no país, segundo o Ministério da Saúde. Nem todos chegam a essa atitude extrema. Entretanto, dentre os que estão fora do mercado de trabalho, 70% relatam ansiedade, 63%, estresse, e 59%, depressão, segundo pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

“As pessoas têm muita dificuldade de adaptação a um nível social mais baixo. E ainda existem pressões como as das redes sociais, de amigos e familiares apontando para a necessidade de consumo. É preciso estar muito equilibrado para não cair em depressão”, afirma o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli.

Segundo o Ministério da Saúde, das 116.113 mulheres que tentaram suicídio no país de 2011 a 2016 (último dado consolidado), 930 (0,8%) o fizeram por questões ligadas ao trabalho, dentre elas o desemprego. Já entre os homens, o percentual sobe para 1,1%. Dentre os 60.098 suicidas, 684 foram por causa do emprego.

Mas esses são apenas os casos notificados no Brasil. Pesquisadores da Universidade de Zurique usaram dados da Organização Mundial da Saúde e concluíram que, dos 233 mil suicídios ocorridos de 2000 a 2011 em 63 países, 45 mil estavam relacionados ao desemprego, o equivalente a 20%.

A própria Sociedade Brasileira de Psiquiatria atribui uma parcela dos suicídios ao desemprego em cartilha sobre o assunto. “Desempregados com problemas financeiros ou trabalhadores não qualificados têm maior risco de suicídio: a taxa referente a mortes desse tipo aumenta em períodos de recessão econômica, principalmente nos três primeiros meses da mudança de situação financeira ou de desemprego”, alerta o material.

Desempregada há um ano, desde quando saiu da sociedade em uma escola, a pedagoga Juliana Marques, 42, quase entrou para essa estatística. Tentou suicídio em agosto do ano passado. Agora, tenta vencer a depressão ao mesmo tempo em que busca recolocação profissional.

“É muito ruim ficar desempregada e depender dos outros. Cheguei a pensar que não tinha mais motivos para viver. Não pensei em ninguém. Só tomei todos os comprimidos que eu tinha em casa e esperei a morte. Mas Deus não quis que eu fosse”, conta.

Primeiro, foi o marido quem perdeu o emprego. Ele usou o dinheiro do acerto para comprar um caminhão e voltar a trabalhar, mas o veículo foi roubado. “Meu marido entrou em depressão. Chorava noites seguidas, dizia que ia se matar, e eu ficava acordada com ele, absorvendo aquela dor”, lembra. 

Quando ela também perdeu o trabalho, caiu em depressão, vieram as brigas, e o marido saiu de casa. “De repente, eu me vi sem emprego, sem dinheiro e sozinha. Minha sorte é que meu pai me estendeu a mão”, afirma. Depois da tentativa de suicídio, Juliana mora nos fundos da casa dos pais. “Tem dias que eu não tenho vontade de sair da cama. Tudo de ruim que aconteceu na minha vida nesses últimos tempos foi por causa do desemprego”, lamenta. 

Medo pode gerar doenças mais graves
O impacto da perda do emprego e o sentimento de rejeição no processo de busca por uma recolocação profissional podem desencadear vários sentimentos negativos. Mais da metade dos desempregados afirma ter insegurança, medo e baixa autoestima, conforme pesquisa do SPC Brasil.

“Uma pessoa que experimenta o desemprego pode passar por várias experiências emocionais – como medo, insegurança, baixa autoestima – que podem desencadear problemas mais sérios, como ansiedade generalizada, síndrome do pânico e depressão”, explica a psicóloga Daniela Salum.

Ciclo negativo se repete desde 2014
Do desemprego para o endividamento. Do endividamento para a redução nas compras. Da diminuição nas vendas para mais demissões no varejo. Mesmo com a redução de 1,8% na inadimplência de junho em Belo Horizonte, esse ciclo, que afeta a economia desde 2014, ainda não cessou. 

“As pessoas estão dando preferência às compras à vista e aos produtos de primeira necessidade por causa da insegurança”, afirma a economista da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH) Ana Paula Bastos. Segundo ela, até as projeções de crescimento do varejo em BH, que estavam em 2,5%, caíram para 1,5%.